quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Murilex Fetuccine

Para alguém especial.

Meu coração é o espelho de tua imagem enquadrada. Não posso falar de ti sem lembrar-me de tua beleza. Tua beleza toda dentro da pequena tela. Eu te olho, baby, como se te beijasse. Ver-te é como ler-te os poros com a minha pele. É como morder-te com os olhos. Quase como a vertigem de certo poeta, que queria ser toda a gente e toda a parte e sentir tudo de todas as formas. Mas tudo é mais leve que o ar... E eu mergulho no mundo claro do teu sorriso como se reencontrasse minha infância perdida, minha infância perdida au fond d’ une poche oubliée...

Tudo é doce como a sonoridade do teu segundo nome. Esse nome que eu pronuncio como se fosses uma bala e eu te lambesse. Porque conhecer-te é saber-te o gosto. Descobrir-te é deixar que entres pelos meus olhos, janelas de mim. Eu te sinto como se te desvendasse. Mas, como num jogo tácito, amar é estar preso por vontade, o vencedor servindo ao vencido e vice-versa várias vezes...

Eu te amo, baby, como se sentisse cheiro de chuva, com muita vontade de ser gota e água e rio corrente... E ter o mar como única certeza é não saber onde se vai parar, nem quando... Eu te quero como se comesse uma fruta. Como se eu fosse toda dentes e língua. Eu quero beber tua alegria simples como se bebe um vinho.

Sei que a vida não é fácil, meu menino. Há muita coisa a ocupar-te a mente. Há muita luta para venceres. Como a minha aqui: uma batalha por dia e pouco tempo para sonhar. Ou, ainda que tenhamos sonho, às vezes nos esquecemos de brincar e dançar dentro dele. Porque os dias são curtos e as noites passam como promessas de felicidade que se adiam e se acumulam. Porque a felicidade é a única dívida isenta de juros.

Mas, hoje, que é o teu dia, todos os meus pensamentos são para ti. Desejo-te toda a sorte e “tudo de bem”...

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

La femme

Para minha amiga Val Natasha


Ela cuida de seu lar como se fosse um templo. Ela própria é um lar ou talvez um salão com luzes sempre acesas e portas sempre abertas para quem quiser dançar e sorrir e cantar. Com suas saias enormes, fartas, ela rege um mundo de sonhos, de alegrias nem sempre comedidas, mas sempre verdadeiras, e idéias maquiavélicas sobre como cultivar uma horta dentro do apartamento ou sobre como conquistar uma metrópole dura e fria com curvas generosas e um sorriso de quem sabe de que é feita a felicidade. Todos os dias, empunhando pincéis, ela inventa o mundo e fala para ele frases politizadas de quem pretende estancar a dor dos oprimidos. Quando ela anda, em casa ou na rua, vai estendendo seus domínios por cada espaço em que pisa com suas sapatilhas de riponga. Os que ousam resistir a esse domínio não escapam, porém, ao seu olhar doce, negro e direto. Olhar que se torna ainda mais irresistível quando é quase interrompido por um leve piscar o qual faz pensar que imediatamente ela virará as costas e não se interessará mais pela vítima. Mas ela persiste... E assim não há pedra, não há ponta de cigarro na sarjeta, nem planta, nem senhora viúva que zanze na feira na quinta ao meio-dia, nem menino, nem moça, nem velho ou playboy que possam escapar ao seu charme, que, não obstante tudo o que aqui foi descrito sobre ela, é um charme de loira. Assim, portanto, se faz a ambigüidade que constitui essa mulher: seu cabelo loiro, escovado, contrastando com sua dança milenar de Grande Mãe pagã. Dentro de um apartamento ou de um ônibus não é possível conter todo o mundo que ela carrega no olhar matreiro ou nos dentes, que jamais deixaram de ser os de uma criança travessa. Em si ela carrega todos os tempos do mundo. As memórias de todas as mulheres que já viveram e viverão estão no peito dela. Mas ela não se importa com isso. Finge não saber, finge não lembrar. Porque somente esquecendo ela poderá fazer uma salada enquanto escuta música popular brasileira pela rádio. Só assim, ela poderá esperar a cada dia a volta do marido, que partiu há semanas para um trabalho distante. Como se ambos fossem os únicos seres humanos a habitar o mundo. Como se aquele lar, aquele mundo, aquele templo, aquele corpo que mal se contém em saias longas e meias de inverno, não pudessem ser preenchidos senão pela seiva do amor desse homem que sempre volta alegre e sedento, mal acreditando que é dono de tanta felicidade.

02/08/2008